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Após cem anos desde a chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao Brasil, descendentes brasileiros daquele povo mantêm relações distintas com a cultura milenar de seus antepassados.
*Publicado originalmente no site Portal3.
Não há como não perceber um descendente de japonês. Diferentemente de outras origens étnicas que circulam no sangue dos brasileiros, a japonesa não se deixa disfarçar. Os cabelos extremamente negros e lisos e os olhos puxados são características marcantes. Porém, mais do que a aparência física, o nikkei, descendente de japoneses, carrega consigo uma carga cultural vinda do oriente e que completa em 2008 um século no Brasil.
Se os japoneses contribuíram economicamente para a agricultura do país trabalhando nas lavouras de café e, posteriormente, introduzindo o cultivo em larga escala de verduras e legumes, transformaram também alguns hábitos alimentares do brasileiro. Hoje, um dos carros-chefe da exportação agrícola do país é a soja, rendendo este ano mais de US$ 9 bilhões até julho. Assim como o arroz, cultivado no Japão há mais de dois mil anos, o grão faz parte da base da alimentação japonesa, junto ao peixe, aos vegetais e aos frutos do mar.
Talvez a alimentação seja o principal elemento cultural japonês difundido no Brasil e, sem dúvida, o aspecto mais cultivado pelos nikkeis. “Não sei cozinhar nem preparar pratos da culinária japonesa. Tudo o que consumo deste cardápio é preparado por minha mãe, mas como gosto muito, sei que terei que aprender a fazê-los se quiser continuar a me alimentar deste modo”, conta a nissei (filha de japoneses) Erica Hiwatashi, coordenadora do curso de Relações Públicas da Unisinos. A comida típica japonesa, segundo ela, só tem o mesmo gosto do Japão quando preparada por japoneses. E, de preferência, em casa.
Na sua alimentação, há sempre peixe (assado ou frito) pelo menos uma vez por semana. Completando o cardápio estão as verduras cozidas, sashimi (salmão cru), um tubérculo que assemelha ao inhame brasileiro e o Tepanyaki, que é servido em uma espécie de ritual familiar. “Sempre juntamos toda a família nos finais de semana para fazer o Tepanyaki. São pedaços picados de verduras, cogumelos, filé, repolho e ervilha torta, grelhados na mesa – mesmo em grelha elétrica – e regados com molho Tarê (agridoce)”.
Erica no Japão em 1995/Arquivo Pessoal
Ainda assim, o Brasil bate forte no coração e o estômago de Erica. Formada em Relações Públicas, foi ao Japão em 1995 através de uma bolsa de estudos de integração cultural concedida pelo Ministério das Relações Exteriores do país. “Eu me percebi como brasileira de fato quando senti muita saudade de feijão com arroz, um prato que nunca dei muita importância. Depois que voltei, para mim não existe nada melhor”, admite.
Nascer em terras brasileiras é fator fundamental na construção da identidade do nikkei. Apesar dos laços familiares e da inserção na cultura nipônica, algumas diferenças se estabelecem conforme o avanço das gerações.
Herança Cultural
A cultura japonesa veio na bagagem história dos imigrantes. O desembarque do navio Kasato Maru em Santos, no dia 18 de junho de 1908, é considerado oficialmente o marco da imigração deste povo no Brasil. Mais tarde, fugidos das mazelas da Segunda Guerra Mundial, como a fome, a falta de emprego e baixa qualidade de vida, muitos japoneses deixaram o país em busca de novas oportunidades.
Assim como todos os povos que vivem no Brasil e contribuíram para a formação sócio-econômica do país (negros, italianos e alemães, por exemplo), os japoneses trouxeram também uma riqueza cultural milenar. Aqui, encontraram trabalho árduo nas lavoras de café. Contudo, a maioria dos imigrantes abandou o emprego para iniciar sua própria produção, como as primeiras plantações de algodão. Isto agregou a eles no imaginário popular a imagem de um povo trabalhador e honesto.
Família Yamashita
A história de como chegaram ao país é comum entre os imigrantes, e foi assim com os pais de Erica. Sadao, já falecido, e Reiko Hiwatashi vieram em situações diferentes para o Brasil. Sadao chegou ao país ainda criança, acompanhado da família em meados da década de 1930. Fugiam do pavor da guerra e instalaram-se em Pelotas para cultivar verduras. Posteriormente, a família mudou para Porto Alegre, dedicando-se o plantio de tomates.
A mãe, Reiko, migrou para Porto Alegre após o término da guerra em busca de uma vida melhor. Os dois participaram de uma tradição muito comum até o século passado para a cultura nipônica, o Miai: casamento arranjado. A tradição, no entanto, não foi cumprida pelos filhos do casal.
Erica também não segue o budismo, a religião dos pais. É católica. Também não se interessa tanto pelo cotidiano japonês como a mãe, que acompanha durante todo o dia o canal NHK e só fala em japonês.
Ainda assim, ela mantém vivas outras atividades da cultura japonesa, principalmente ao que se refere à cultura pop, como cinema e música. Dos aspectos tradicionais, admira o equilíbrio e a contemplação da estética oriental tradicional, do design e dos jardins.
Novas Gerações
Mesmo com a influência dos pais e avós, muitas das formas culturais desses orientais tendem a diminuir com o passar das gerações.
A sanssei (neta de japoneses) Camila Mayuri Yamashita, de 18 anos, não é fã da culinária japonesa, apesar de saber fazer o oniguiri, um bolinho de grãos de arroz. É católica e não sabe falar japonês além da compreensão de algumas palavras soltas. Sua descendência nipônica vem apenas por parte de sua mãe. O avô, contudo, veio para o Brasil antes da Segunda Guerra.
Tudo o que Camila sabe e cultiva da cultura japonesa foi por interesse próprio. “Minha avó ainda cultiva muita coisa do Japão, mas poucos dos netos se interessam em aprender alguma coisa. Além da falta de interesse por parte deles, vejo também que ela tem alguma dificuldade em transmitir a tradição”, pondera Camila, que tentou aprender japonês na infância, mas esbarrou nas dificuldades que o idioma apresenta.
Moradora de São Leopoldo, passou a freqüentar a colônia japonesa de Gravataí quando seu avô faleceu, deixando sua avó sem companhia para as atividades. Lá, Camila pratica Gateball, esporte japonês semelhante ao críquete. O local serve à comunidade nipônica para a prática de esportes coletivos e atividades recreativas, sobretudo voltadas para a terceira idade, sob a organização da Enkyo, uma instituição beneficente nipo-brasileira.
Apesar de não ter tanto apego às tradições japonesas, Camila não pisa no interior da casa de sapato. Traz energias negativas. Desde a infância faz o Omeretô. A prática consiste em decorar uma frase em japonês para pronunciar no reveillon, que ganha mais palavras a cada ano. A bonificação é receber uma quantia financeira simbólica de cada membro da família.
Ainda assim, defini-se como brasileira. “Amo meu país. Já cogitei morar no Japão com parentes, mas tenho medo do estigma de operário que os estrangeiros têm por lá. Não importa se você tem formação superior, o tipo de trabalho para quem não é nascido no Japão é mais na área industrial”, revela.
Ela tem razão. Os dekasseguis, nipo-brasileiros que vão ao Japão para ganhar a vida, acabam fazendo os serviços que o japonês nativo não quer fazer: desde montagem de peças eletrônicas em fábricas à limpeza de ruas, além da carga horária de trabalho exaustiva de cerca de 12 horas por dia. O que não significa que alguns não possam obter sucesso. Dados apurados em 2006 pelo Consulado Japonês de São Paulo, maior colônia nipo-brasileira do país, dão conta de que mais de 20 mil vistos de trabalho foram concedidos.
Esse retorno dos descendentes para a terra dos antepassados começou ainda na década de 1980, quando o Japão iniciava o seu boom econômico. Hoje, o país se transformou em um dos maiores pólos tecno-industriais do mundo e sinônimo de consumo.
Consumo este que se manifesta na moda e na cultura pop, globalmente reconhecida. Os mangás – revistas em quadrinhos – e os animes – desenhos animados – são febre no Brasil. Desta cultura jovem e pop, Camila não gosta. “Acho que é uma moda passageira e até acho que tem perdido a força que tinha até pouco tempo atrás”.
Do que aproveita da cultura tradicional dos avós está a admiração pelo respeito que os japoneses têm pela família e pelos mortos. “No ano novo, minha avó não sai de casa, pois acredita que o espírito de meu avô visita a casa para abençoá-la na transição do ano”, revela a garota que executa ritos de passagem japoneses como a celebração de aniversários de morte dos parentes, visitando os túmulos e acendendo incenso.
Família Mayuri Yamashita/Arquivo Pessoal
E se há algo que esta sanssei queira passar para seus descendestes da cultura japonesa é apenas a união familiar. “Não vejo na parte brasileira da minha família a união que percebo entre a parte japonesa. Estamos sempre reunidos. Para meus filhos, só quero transmitir o afeto e o respeito que possuímos um com outro”.

